quarta-feira, dezembro 12, 2007

Para uma definição do Pecado Original


"Esta situação pecaminosa que consiste numa ausência, na carência de uma mediação da graça, é onde se manifesta a força do pecado, a força do reino do pecado que incapacita o homem de por si só se realizar pessoalmente no amor a Deus e aos homens.
Em que sentido então é que se lhe chama pecado?
Em primeiro lugar não se trata de pecado pessoal no sentido de acto pecaminoso nem de um acto de outro que lhe é imputado a ele. Na teologia clássica dizia-se que era por propagação para distinguir que não era por imitação. Mas isto era dentro de um esquema jurídico: o filho sofria os efeitos da culpa do pai. É assim este pecado entendido como uma estrutura.
A estrutura é um sistema de relações entre vários elementos interligados e inter-actuantes de tal maneira que um modifica o significado dos outros e o significado de cada um é modificado pelos outros.
Quais são então os elementos que formaram a estrutura do pecado original?
a) Inclinação ao mal.
b) Situação de carência de graça.
c) História do pecado desencadeada desde o início.

Esta inclinação ao mal seria ultrapassável pelo homem se não faltasse a mediação de graça própria da humanidade, se não faltasse a graça vitoriosa do Espírito de Deus que deveria circular na humanidade.
A situação de carência da graça não seria analogicamente pecaminosa se não absolutizasse a inclinação ao mal.
Nenhum destes elementos seria o que é se não fossem fruto duma história de pecado contrária à vontade do Criador.
Então porque é que se pode chamar pecado? Em que sentido?
Só em sentido análogo e não em sentido unívoco. O pecado propriamente dito, do ponto de vista moral é uma acção consciente e responsável de recusa de Deus. Neste caso não se trata disto mas de uma situação na qual entra todo o homem que vem ao mundo. Falamos em sentido análogo porque tem semelhanças e diferenças. A diferença já está à vista. A semelhança é com a situação resultante do pecado pessoal em que um indivíduo se coloca na ruptura com Deus. A semelhança é, portanto, o facto da carência de graça.
A essência do pecado original consiste na impossibilidade de o homem por si só amar a Deus sobre todas as coisas, ou seja, de fazer opção por Deus e de evitar o pecado, a qual se realiza no homem por causa do pecado do mundo.
O homem inserido na sociedade de pecado e de pecadores não chega por si só a amar a Deus, à ideia de que tal amor é plenitude de vida. Tal situação não torna o pecado original extrínseco. À situação corresponde o ser-situado: dado o ambiente, a cultura, o mundo do pecado, o homem é realmente incapaz de amar a Deus.
W. Kasper define assim o pecado original: «O pecado original significa que a situação universal que determina cada um na sua interioridade, está efectivamente em contradição com a vontade originária da salvação de Deus, vontade que é imanente à criação na sua orientação para Cristo e para a sua realização n'Ele. Este pecado diz-nos que a salvação prevista por Deus para o homem como homem, já não se transmite com efectividade desde o princípio; de forma que existe uma contradição entre a orientação do homem a Cristo e a sua determinação pela solidariedade universal no pecado».
De tal maneira existe esta situação de contradição que por um lado continuamos a ser chamados para Cristo, para a comunhão com Cristo e por outro, estamos mergulhados nesta situação: trazemos também em nós a «marca» que o homem deixa no mundo e na história. E é isto que a doutrina do pecado original quer colocar diante de nós.
A doutrina do pecado original é apenas uma das faces da medalha; nunca se pode ver sozinha, isto é, independentemente da outra face que é a redenção de Cristo. Quando dizemos que o homem vem ao mundo sob o signo do pecado, dizemos só meia verdade porque também vem ao mundo sob o signo de Cristo.
O pecado marca a oposição que se dá entre a nossa história e a dinâmica do último, do escathon, da plenitude em Deus.
Que sentido tem então o Baptismo? O Baptismo é o sacramento onde se visibiliza comunitária e historicamente esse destino universal dos homens para Cristo, sendo inseridos na sua graça redentora. Isto não significa que aqueles que por ventura não estejam baptizados estejam fora do ambiente da graça porque a redenção é universal. A nossa fé é a fé de que o pecado não é mais forte do que Cristo, do que a graça redentora. E isto porque às vezes se falou do pecado original tão unilateralmente, isto é, como uma realidade mais forte do que a graça redentora (a graça seria neste caso reservada só aos baptizados). De facto, o caminho normal para quem conhece a Cristo é o Baptismo, mas «Deus non avigavit gratiam sacramentis» (‘Deus não tornou a graça prisioneira dos sacramentos’).
Ainda que tivéssemos procurado esclarecer o pecado original, ele continua a ser um mistério. É o aspecto obscuro do mistério da salvação gratuita de Deus para todo o mundo; o não do homem e a sua significação para os seus semelhantes.
Se contemplamos a redenção, o pecado original ou pecado do mundo continua a ser uma realidade, só que é sempre uma meia realidade, uma face do nosso ser situado. O homem desde o início da sua vida está situado pelo pecado original e pela redenção; por Adão e por Cristo. E assim como o pecado original diz pertença à humanidade pecadora, assim também o Baptismo expressa o acolhimento na comunidade da salvação que é a Igreja de Cristo, sacramento de salvação.
Devemos no entanto continuar a usar a terminologia de pecado original? A expressão é clássica, tem 16 séculos de história, mas seria aconselhável se se falasse de pecado original noutros termos:
- Pertença ao Reino do pecado
- Situação de alienação espiritual
- Pecado da humanidade
- Pecado do mundo
etc.
São expressões que traduzem aquilo que queremos dizer com pecado original. Mesmo que não traduzam tudo, também a expressão pecado original conforme está na mentalidade popular não traduz tudo e até é capaz de conduzir a maiores equívocos."

2 comentários:

Fire Goblindancer disse...

obg.

bjs

Anónimo disse...

Nunca vi tanto escrito para dizer...NADA!
Senão vejamos:

A Sandra escreveu:

«A essência do pecado original consiste na impossibilidade de o homem por si só amar a Deus sobre todas as coisas, ou seja, de fazer opção por Deus e de evitar o pecado, a qual se realiza no homem por causa do pecado do mundo.»

Ora:

"Se Deus quer acabar com o mal mas não consegue, então ele não é onipotente.
Se Deus pode acabar com o mal mas não o faz, então ele é mau.
Se Deus quer e pode, então de onde vem o mal?
Se Deus nem pode nem quer, então por quê chamá-lo Deus?"
(Epicuro, filósofo grego, c. 341-270 a.C.)

É dificil perceber?