
“Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago.» Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta, e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada.”
Não há episódio melhor para comentar e compreender a dinâmica do Reino do que este em que vemos Jesus subir para o barco com os discípulos e aí adormecer. A anotação parece supérflua mas alude provavelmente a um grande cansaço do Mestre, rendido por um dia muito empenhativo. O comportamento de Jesus não só é inútil à situação concreta em que os discípulos se encontram, mas inexplicável. Podemos dizer que é previsível que o Senhor escolha não se manifestar na necessidade, como se Deus fosse um tapa-buracos. Mas é estranho o contexto no qual repousa. Não podemos imaginar que os doze tinham uma das melhores embarcações. Sem estarmos com muitas divagações, é possível dizer que a situação não era favorável ao sono, dentro de um barco ao sabor das ondas, cheio de homens agitados e com medo. O detalhe menos compreensível do texto é este.
“Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto.» O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?» Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?»”
O leitor, ao ver Jesus acordar, já intui que ele agirá para sanar a situação. Mas não consegue perceber o sono tranquilo interrompido só pela inquietante pergunta dos doze. Também o sono de Jesus deve ser entendido à luz das parábolas do Reino. O agricultor pode repousar tranquilo diante da acção secreta mas constante da semente. A semente merece uma fidelidade incondicionada, mesmo quando a terra está completamente privada de sinais de vida. Sabemos quanto o sono está ligado à nossa tranquilidade. Desaparece imediatamente, também em situações ideais, se o coração está agitado por uma tempestade de emoções. Não é assim para Jesus. No barco, no meio das ondas, Ele está nos braços do Pai. Jesus adormecido é um excepcional ícone da fé, do abandono que consente vencer o pânico e a angústia. A tempestade é o reflexo do ânimo dos doze, tanto quanto o mar em bonança é o coração de Cristo. O vento abana os discípulos como move as ondas do mar. Do mesmo modo a calma soberana de Jesus e a “bonança” da seu espírito se estenderão ao inteiro espelho de água. O lago de Tiberíades é bem menos ameaçador do que o abismo que engolirá o Cristo, tendo-o preso por três dias e três noites. Aquele que repousa no barco é o mesmo que dormirá no próprio sepulcro, de novo e sempre como nos braços do Pai. O Amor de Deus é uma realidade em que se pode confiar. De outra forma, como explicaríamos o sono de Jesus? Por isso a sua passividade interpela-nos tanto como a sua prodigiosa intervenção. Repousar na tempestade não é um milagre menor do que aplacar um lago atormentado pelas ondas. É a fé que falta com dramática evidência na acusatória pergunta dos discípulos. Essa já tem uma resposta negativa: o sono de Jesus. Ele dorme porque não se preocupa com a sorte dos seus seguidores. Não merece que acreditemos nele. Este é o fundo de tantas orações nossas nas quais interpelamos vigorosamente um Deus estranho e adormecido para que finalmente se ocupe da nossa sorte. A fé, pelo contrário, é o antídoto para o sentido de abandono que nos prende. Também diante da morte é possível repousar confiantes. A Páscoa de Jesus conduz-nos precisamente aqui. A incerteza dos discípulos é falta de fé, por isso têm medo. O contrário do medo na Bíblia não é a coragem mas a fé na presença e na acção de uma força que não vêm de mim.
Não há episódio melhor para comentar e compreender a dinâmica do Reino do que este em que vemos Jesus subir para o barco com os discípulos e aí adormecer. A anotação parece supérflua mas alude provavelmente a um grande cansaço do Mestre, rendido por um dia muito empenhativo. O comportamento de Jesus não só é inútil à situação concreta em que os discípulos se encontram, mas inexplicável. Podemos dizer que é previsível que o Senhor escolha não se manifestar na necessidade, como se Deus fosse um tapa-buracos. Mas é estranho o contexto no qual repousa. Não podemos imaginar que os doze tinham uma das melhores embarcações. Sem estarmos com muitas divagações, é possível dizer que a situação não era favorável ao sono, dentro de um barco ao sabor das ondas, cheio de homens agitados e com medo. O detalhe menos compreensível do texto é este.
“Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto.» O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?» Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?»”
O leitor, ao ver Jesus acordar, já intui que ele agirá para sanar a situação. Mas não consegue perceber o sono tranquilo interrompido só pela inquietante pergunta dos doze. Também o sono de Jesus deve ser entendido à luz das parábolas do Reino. O agricultor pode repousar tranquilo diante da acção secreta mas constante da semente. A semente merece uma fidelidade incondicionada, mesmo quando a terra está completamente privada de sinais de vida. Sabemos quanto o sono está ligado à nossa tranquilidade. Desaparece imediatamente, também em situações ideais, se o coração está agitado por uma tempestade de emoções. Não é assim para Jesus. No barco, no meio das ondas, Ele está nos braços do Pai. Jesus adormecido é um excepcional ícone da fé, do abandono que consente vencer o pânico e a angústia. A tempestade é o reflexo do ânimo dos doze, tanto quanto o mar em bonança é o coração de Cristo. O vento abana os discípulos como move as ondas do mar. Do mesmo modo a calma soberana de Jesus e a “bonança” da seu espírito se estenderão ao inteiro espelho de água. O lago de Tiberíades é bem menos ameaçador do que o abismo que engolirá o Cristo, tendo-o preso por três dias e três noites. Aquele que repousa no barco é o mesmo que dormirá no próprio sepulcro, de novo e sempre como nos braços do Pai. O Amor de Deus é uma realidade em que se pode confiar. De outra forma, como explicaríamos o sono de Jesus? Por isso a sua passividade interpela-nos tanto como a sua prodigiosa intervenção. Repousar na tempestade não é um milagre menor do que aplacar um lago atormentado pelas ondas. É a fé que falta com dramática evidência na acusatória pergunta dos discípulos. Essa já tem uma resposta negativa: o sono de Jesus. Ele dorme porque não se preocupa com a sorte dos seus seguidores. Não merece que acreditemos nele. Este é o fundo de tantas orações nossas nas quais interpelamos vigorosamente um Deus estranho e adormecido para que finalmente se ocupe da nossa sorte. A fé, pelo contrário, é o antídoto para o sentido de abandono que nos prende. Também diante da morte é possível repousar confiantes. A Páscoa de Jesus conduz-nos precisamente aqui. A incerteza dos discípulos é falta de fé, por isso têm medo. O contrário do medo na Bíblia não é a coragem mas a fé na presença e na acção de uma força que não vêm de mim.


2 comentários:
Fiz referência a este teu post, lá no Partilhas.
Obrigada!
Beijinhos
Sandra e eu segui a referência da Fá até cá, porque também eu gosto muito deste episódio da Bíblia e não resisti a vir lê-lo.
Um grande bj!
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