Domingo, Junho 05, 2011

Eu estou sempre convosco


O tempo e o lugar da Ascensão são incertos e assim devem continuar. A força teológica de uma imagem ou de uma história está naquilo que invocam, naquilo a que aludem. Os evangelistas narram um evento, não um facto. É como evento que a narração da ascensão exprime a certeza a que os discípulos chegaram sob a direcção do Espírito. Ela explica, antes de mais, que os discípulos não devem ficar parados a olhar para o céu. No momento em que entrega Jesus ao céu, a ascensão restitui os discípulos à terra. Dizem-no com clareza, seja o livro dos Actos, seja o final do Evangelho de Mateus: a ascensão de Jesus é a condição que funda a missão da Igreja no mundo. A comunidade dos discípulos deve configurar-se à volta de um projecto missionário de amplo respiro. A autenticidade da fé no ressuscitado mede-se com uma tomada de responsabilidade diante da terra. Cada geração cristã tem sentido tal responsabilidade de maneira diferente. No século passado a mundialização das guerras tinha imposto que se levasse a sério o risco efectivo de extinção de toda a humanidade. O impacto com a degradação do meio ambiente e o risco efectivo de extinção da vida sobre chama hoje as jovens gerações a ficar com o peso da sobrevivência de todo o planeta. Para uns as atómicas de Hiroshima e Nagasaki, para outros os reactores de Fukushima, representam duas variantes do mesmo ícone de terror: em tempos de guerra como em tempos de paz, ninguém pode pensar em salvar-se só a si mesmo, mas salvamo-nos ou morremos todos juntos. Já tomamos consciência de que, na época da globalização, também a responsabilidade a que cada um é chamado é global. Os confins da terra são bem mais do que uma expressão geográfica e dirigir-se para as pessoas não significou para as Igrejas um simples incremento quantitativo. Para Mateus, a grandiosa cena da entrega, do mandato missionário é atravessada pela consciência de que adoração e dúvida são os dois rostos da fé e só juntos, atestam a verdade da mesma. Nunca a força da missão pode ser confundida com a ausência da dúvida nem pode ser confundida com o categórico das certezas. A força do mandato missionário só está na potência da ressurreição. É preciso recordá-lo se não se quer transformar a missão da Igreja em arrogantes acções de prepotência, mas que continue sempre o prolongamento da economia divina, aquela que o Pai quis, o Filho realizou e o Espírito tornou possível. As Igrejas vivem hoje um tempo de dificuldade, muitas vezes desanimadas como estão a seguir antigas glórias para fazer frente aos mil rostos da crise. Talvez, porém, devessem recordar que, antes de serem enviadas a baptizar, elas próprias foram baptizadas no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

2 comentários:

Irmã Josy disse...

Bonito texto!!! Profundo, urgente e verdadeiro!

aguarela disse...

Maravilhosas palavras,amiga Sandra!
Como é hábito,tens certos textos que me fazem pensar a sério...
É o que vou fazer!
Grandioso abraço minha querida amiga.
;-)