Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

Eis...


"Eis aqui a Virgem, e aqui José, e aqui o menino Jesus. A virgem está pálida e olha o menino, na sua cara há um gesto de assombro cheio de ansiedade que apareceu apenas uma única vez num rosto humano. É que Cristo é o seu filho, carne da sua carne e fruto das suas entranhas. Durante nove meses O trouxe no seu seio, e ela lhe dará o peito e o seu leite converter-se-á no sangue de Deus. De vez em quando a tentação é tão forte que se esquece que Ele é Deus. Estreita-o entre os seus braços e diz-lhe: «Meu pequenino!» Mas noutros momentos fica sem fala e pensa: "Deus está aqui".
Olha-O e pensa: «Este Deus é o meu filho. Esta carne divina é a minha carne. Está feita de mim. Tem os meus olhos, e a forma da sua boca é a da minha. Parece-se a mim. É Deus e parece-se a mim». 
E nenhuma mulher, jamais, desfrutou assim do seu Deus, só para ela. Um Deus muito pequenino a quem se pode estreitar nos braços e cobrir de beijos. Um Deus quentinho que sorri e que respira, um Deus que se pode tocar; e que vive.
E José? Parece uma sombra, ao fundo do estábulo, com dois olhos brilhantes. Não saberia o que dizer de José e José não sabe o que dizer de si mesmo. Está em adoração e está feliz por adorar e sente-se um pouco exilado.
Creio que sofre sem o confessar. Sofre porque vê o quanto se parece a Deus a mulher que ama e até que ponto está já ao lado de Deus. Porque Deus explodiu como uma bomba na intimidade desta família. José e Maria estão separados para sempre por este incêndio de claridade. E imagino, que toda a vida de José, será aprender a aceitar.
Eis aqui a Sagrada Família."


In, Barioná, Jean-Paul Sartre 

2 comentários:

Anónimo disse...

Sandra, Jesus nasceu em Belém ou Nazaré?!

aguarela disse...

ó Sandra,que magnífico texto!
Olha,vou copiar para melhor saborear.

Boas-Festas!!!! Bjinhos amiga ;-)